Punição da Fifa segue em vigor apesar de discurso otimista, enquanto clube tenta equacionar dívida milionária e destravar reforços

O calendário virou, janeiro chegou ao fim, mas um problema segue inalterado no Botafogo. Neste sábado, o clube completa um mês sob transfer ban, punição imposta pela FIFA em razão do não pagamento da transferência de Thiago Almada, negociado junto ao Atlanta United. A sanção passou a valer no último dia de 2025 e segue válida pelas próximas três janelas de transferências.
Mesmo com bom momento dentro de campo e início animador de temporada, o Botafogo segue convivendo com um cenário extracampo delicado, marcado por negociações financeiras complexas, discursos desencontrados e reforços que treinam sem poder atuar oficialmente.
Discurso otimista e realidade travada
Após a goleada por 4 a 0 sobre o Cruzeiro, o acionista majoritário da SAF, John Textor, afirmou na zona mista que o problema estava “resolvido”. A declaração gerou expectativa imediata entre torcedores e até dentro do clube. Na prática, porém, o transfer ban segue ativo, e nenhuma liberação foi confirmada até o momento.
Internamente, o Botafogo reconhece que ainda busca uma solução definitiva. A Fifa não removeu a punição, e o clube continua impedido de registrar novos atletas, mesmo já tendo anunciado reforços e realizado negociações importantes no mercado.
Dívida com o Atlanta United chega a US$ 30 milhões
O centro do impasse está na dívida com o Atlanta United, que atualmente gira em torno de US$ 30 milhões, valor já atualizado. A quantia inclui US$ 21 milhões referentes à venda de Thiago Almada, além de US$ 4 milhões em bônus contratuais e US$ 5 milhões ligados à cláusula de revenda ao Atlético de Madrid.
De acordo com informações divulgadas pela Rádio Tupi, o Botafogo já teria costurado um acordo com o clube norte-americano para quitar o débito em três parcelas de US$ 10 milhões. O modelo incluiria garantias para o pagamento das duas parcelas finais, condição exigida pelo Atlanta United para aceitar o parcelamento.
Apesar do avanço nas conversas, a negociação ainda não foi concluída oficialmente, e a origem dos recursos passou a ser o principal ponto de debate nos bastidores.
Aporte milionário gera desconfiança interna
A solução desenhada para viabilizar o pagamento envolve um possível aporte de US$ 50 milhões, o equivalente a aproximadamente R$ 263 milhões. Dentro do Botafogo, no entanto, o movimento não é tratado como simples injeção de capital. Internamente, o valor é visto como um empréstimo com juros considerados muito elevados, o que acendeu alertas no clube associativo.
Diante do cenário, o Botafogo associativo exigiu a realização de uma auditoria independente, que será conduzida por um banco especializado, para avaliar as condições, riscos e impactos desse possível aporte. A preocupação é evitar que a solução de curto prazo gere um problema ainda maior no futuro financeiro da instituição.
Em meio às discussões, John Textor também declarou publicamente que poderia quitar o transfer ban com recursos próprios, algo que ainda não se concretizou.
Cinco jogadores treinam sem poder atuar
Enquanto as negociações se arrastam fora de campo, o reflexo esportivo é direto. O técnico Martín Anselmi já conta com cinco jogadores treinando regularmente, mas impossibilitados de serem relacionados por falta de inscrição.
A lista inclui os zagueiros Ythallo e Riquelme, o lateral-esquerdo Jhoan Hernández, o volante Wallace Davi e o atacante Lucas Villalba.
Inicialmente, Riquelme e Hernández estavam nos planos para atuar pelo sub-20, mas ambos passaram a treinar com o elenco principal, aumentando a expectativa de aproveitamento imediato assim que a punição for suspensa.
Impacto esportivo e desafio de gestão
A situação cria um paradoxo curioso. Dentro de campo, o Botafogo vive um momento de confiança, bons resultados e reconhecimento nacional. Fora dele, enfrenta entraves administrativos que limitam o planejamento esportivo e colocam pressão constante sobre a gestão.
Para Anselmi, o desafio é manter o elenco competitivo, motivado e focado, mesmo sabendo que há peças prontas para jogar e impossibilitadas de ajudar. Para a diretoria, o desafio é encontrar uma solução que resolva o problema imediato sem comprometer o futuro financeiro do clube.
Um mês depois, incertezas permanecem
Ao completar um mês sob transfer ban, o Botafogo segue no mesmo ponto crucial: a necessidade de transformar discursos em ações concretas. A dívida existe, o acordo ainda não foi oficializado e os reforços seguem aguardando liberação.
O tempo corre, a temporada avança e a margem de erro diminui. Resolver o transfer ban deixou de ser apenas uma urgência administrativa. Tornou-se uma peça-chave para sustentar o bom momento esportivo e evitar que a instabilidade fora de campo volte a contaminar o que acontece dentro das quatro linhas.