
O Barcelona feminino, referência recente de hegemonia e inovação no futebol europeu, atravessa um momento de incerteza. A crise financeira que abala o clube respingou na equipe tricampeã da Champions, provocou saídas importantes, freou investimentos e colocou em risco um dos projetos mais vitoriosos do esporte.
O time espanhol se consolidou como uma das maiores referências da modalidade nos últimos anos. Foram cinco finais de Champions League em cinco temporadas, com três títulos conquistados, além da hegemonia absoluta na Liga F, onde o clube domina a cena nacional. A equipe blaugrana também se transformou na base da seleção espanhola, campeã mundial em 2023, e virou exemplo de gestão e desenvolvimento no futebol feminino, combinando investimento em estrutura e trabalho de formação com resultados dentro de campo.
O time feminino do Barcelona vive uma realidade muito diferente da do masculino. Enquanto o clube como um todo está mergulhado em dificuldades financeiras, especialmente por conta da dívida elevada e das limitações impostas pelo fair play da LaLiga, a equipe feminina segue como a única seção autossustentável. Em 2023/24, registrou receita de €17,9 milhões, com orçamento salarial de €12,7 milhões e um lucro líquido de €217 mil, números que reforçam a força comercial do projeto, sustentado por grandes patrocinadores e crescente apelo de público.
Ainda assim, mesmo com essa rentabilidade, a crise geral do Barcelona impacta o futebol feminino. Isso porque todas as modalidades do clube, incluindo masculino, feminino e esportes amadores, agora entram no mesmo cálculo de fair play financeiro da liga espanhola. Ou seja, apesar de o time feminino gerar superávit, ele também fica atrelado ao desequilíbrio do masculino, que compromete investimentos e dificulta a expansão de um projeto que, até aqui, era exemplo de sustentabilidade dentro do esporte.
Para a temporada 2025/26, o Barcelona feminino vive um cenário de enxugamento no elenco, reflexo direto da necessidade de reduzir o déficit financeiro do clube. Até o momento, mais de dez atletas deixaram a equipe, incluindo seis nomes do time principal: Ingrid Engen, Ellie Roebuck, Fridolina Rolfö, Bruna Vilamala, Jana Fernández e Martina Fernández. Em contrapartida, apenas um reforço foi anunciado: a zagueira Laia Aleixandri, contratada junto ao Manchester City e que já havia defendido a base do time catalão. Assim, restam apenas 17 jogadoras inscritas no elenco principal para disputar quatro competições na temporada.
Apesar de o orçamento de 13,75 milhões de euros ter sido preservado, o Barcelona feminino também sofre os efeitos do fair play financeiro da LaLiga, que contabiliza todas as modalidades do clube em conjunto. Na prática, isso significa que, mesmo sendo uma equipe autossustentável e lucrativa, o departamento feminino enfrenta limitações impostas pelo déficit acumulado do futebol masculino. Qualquer contratação ou renovação precisa caber dentro do teto global estabelecido pela liga. Segundo Xavi O’Callaghan, diretor de esportes profissionais do Barça, ainda que o time feminino tenha cumprido com sua própria folha salarial, foi necessário um aval de 7 milhões de euros por causa do impacto do masculino.
A preocupação dentro do vestiário é de que a crise comprometa as negociações para renovar o contrato de peças importantes do time. Nomes como Alexia Putellas, Mapi León e Caroline Graham Hansen, referências técnicas e líderes, podem ter suas permanências colocadas em risco diante das restrições financeiras.
Agora, diante do cenário de incertezas, o Barcelona aposta nas jovens promessas de La Masia para sustentar a continuidade do projeto vitorioso. A formação de talentos sempre foi um dos pilares do clube, e no feminino ganha ainda mais relevância, funcionando como alternativa para renovar o elenco, reduzir custos e manter a identidade de jogo que consagrou a equipe nos últimos anos.