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O dia que Fla e Flu uniram-se na arquibancada

Torcida do Flamengo não apoiou a posse de Maluf.

Dito como o clássico mais charmoso do Rio de Janeiro e uma das maiores rivalidades do Brasil, Flamengo e Fluminense ditam mais uma final do Campeonato Carioca. O Fla-Flu tem muita história, são mais de 100 anos desde o primeiro confronto, tendo iniciado com uma hegemonia do clube das Laranjeiras, e com diversas dicotomias.

A filosofia desde os pré-socráticos estuda os pares opostos, tudo o que se opõe como: bem/mal; real/irreal; finito/infinito, como a tabela dos opostos proposta por Pitágoras. Desde o começo da história do Fla-Flu encontramos diversas bipartições que fazem o clássico ser cada vez mais atraente. Alguns exemplos como: o Flamengo é um clube bicolor e o Fluminense tricolor. O time da Gávea é conhecido por ser o clube do povo, e o Fluminense aquele que tem toda pompa e muitas vezes chamado de elite. A influência linguística do clássico também é enxergada: o jogo chamado totó aqui no Rio de Janeiro e pebolim em São Paulo, é carinhosamente apelidado de “Fla-Flu” no sul do Brasil. Debate entre duas pessoas também pode ser chamado de “Fla-Flu”. Contudo, observa-se uma influência que transcende o campo e está presente no vocabulário brasileiro, além de observarmos a grande rivalidade também vinda dos opostos: onde um clube está, o outro está ao lado contrário. Porém, nem sempre a história se repete, na Taça Guanabara de 1984 os clubes, encarnados em suas torcidas, se uniram na arquibancada por um só desejo.

Repercussão do encontro entre Fluminense e Governo Federal.

Analisando o contexto histórico, o Brasil estava em um processo de “transição lenta, gradual e segura” no que se diz respeito a redemocratização, vinda de um extenso período de ditadura civil-militar empresarial (Pedro Campos). O governo estava em mãos militares, com o general Figueredo, e houve um episódio interessante o envolvendo e o clube tricolor. Publicamente assumido como torcedor do Fluminense, o general recebeu em Brasília uma comitiva de seu clube de coração em 1983 para lhe presentear com uma medalha e a faixa de campeão estadual daquele ano. Havia uma aproximação entre o governante e o tricolor carioca. No ano seguinte, em 1984 o clima de uma possível eleição direta tomava conta da população brasileira. Muitas manifestações e a frase “Diretas Já” virou símbolo desse momento da história brasileira. Os torcedores do Flamengo já haviam aderido à campanha, formando a organizada “Fla Diretas”, com direito a Bussunda, Henfil e Christiane Torlone como madrinha. Mas o que aconteceu nessa final da Taça Guanabara de 1984, era o que faltava pra marcar mais ainda a história do clássico.

Torcida Fla Diretas, movimento liderado por estudantes e torcida do Flu também desejando eleições diretas.

O candidato da oposição era Tancredo Neves, flamenguista, e dos militares era Paulo Maluf, são paulino, mas que havia ganhado a camisa do Fluminense no episódio de 83. Estava tudo se encaminhando para mais uma dicotomia nas arquibancadas. A torcida do Flamengo chegava com dizeres: “O Fla não malufa” e “Diretas já”, e a torcida do Fluminense, bom, estendeu suas bandeiras verde branco e grená, e uma faixa: “O Flu não vai malufar – Diretas Já”. Apesar de todos bastidores insinuando uma preferência pela eleição de Maluf, a torcida do tricolor mandou seu recado pela democracia e se juntou ao rival na campanha pelo fim da ditadura e o poder dos cidadãos de escolherem diretamente seus governantes. O jogo terminou 1×0 para o rubro-negro, mas o campeonato carioca foi levado pelo Fluminense e fora de campo o desejo dos adeptos e de milhares de brasileiros não foram atendidos: não houve eleições diretas, porém quem assumiu foi Tancredo Neves, que nem chegou a ser empossado do maior cargo do Brasil devido a morte, e foi precedido por seu vice José Sarney.

Futebol e política andam juntos, basta olhar para o rubro-negro carioca no momento.

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